Decidi partilhar um trabalho que fiz há algum tempo para a disciplina de Curadoria. Fala da estória do beijo na arte. Mas se não vos apetecer ler, pelo menos vão dar uns beijinhos hoje!
A estória “mal contada” do beijo…
Os historiadores não sabem muito sobre a história inicial do beijo. Quatro textos em Sânscrito Védico, escritos na Índia por volta de 1500 a.C., parecem descrever pessoas beijando-se. Isso não significa que ninguém se tenha beijado antes, nem que os indianos tenham sido os primeiros a beijar-se. Os artistas e escritores podem ter considerado o beijo demasiado privado para ser descrito na arte ou literatura. Assim, após a sua primeira menção por escrito, o beijo não apareceu muito na arte ou na literatura por algumas centenas de anos.
…por Francesco Hayez
A obra, “O beijo” (1856) de Francesco Hayez (1971-1882) pintada no é uma das primeiras representações do beijo na arte ocidental.
A pintura representa um casal na Idade Média, abraçando-se e beijando-se. A mulher inclina-se para trás, enquanto o homem dobra a perna esquerda, a fim de oferecer suporte para ela, simultaneamente, colocando um pé no degrau acima para poder fugir a qualquer momento. Hayez queria que a acção de beijar estivesse no centro da composição, como tal o casal no centro da pintura não é reconhecido,
Esta pintura tem sido considerada como um símbolo do romantismo italiano. Num nível superficial, a
pintura é a representação de um beijo apaixonado, colocando-se em conformidade com os princípios do romantismo, salientando sentimentos profundos, em vez de pensamento racional.
Num nível mais profundo, a pintura pretende retratar o espírito do Ressurgimento sendo uma reinterpretação e reavaliação da Idade Média de uma forma patriótica e nostálgica.
. O homem veste vermelho, branco e verde, que representa os patriotas italianos que lutam pela independência do Império Austro-Húngaro. Vestido azul pálido a mulher simboliza França, que, em 1859 (ano de criação da pintura), fez uma aliança com o Reino do Piemonte e da Sardenha permitindo esta última unificar os muitos Estados da Península Itálica num novo Reino da Itália.
…por Toulouse-Lautrec
A obra “O beijo” de Henri Toulouse-Lautrec (1864-1901) data de 1892.
Toulouse-Lautrec tem que ser destacado pela sua singularidade e ousadia ao registrar e publicar imagens de cabarés, moças nuas e momentos íntimos numa época em que tais realidades, apesar de muito comuns, eram dissimuladas ou mesmo abafadas frente aos olhos públicos. Todavia, as reproduções desses ambientes e situações não são expostas de maneira chocante como o género poderia
sugerir, mas sim de maneira serena, comedida e muitas vezes levemente divertida. Alegadamente a obra de que falamos aqui foi pintada num bordel, no entanto a percepção que temos da mesma e a sua descrição não se enquadram nos moldes não convencionais de um local como este. Senão vejamos, a cena de paixão fotografada pelo artista, apesar de ser bastante explícita quanto aos sentimentos ali envolvidos, é apresentada de forma terna e sensível. As feições de ambos mostram calma na cena, transparecem carinho e ternura, ao mesmo tempo que as suas posições – principalmente o braço do jovem – sugerem uma ação mais intensa do momento. O fundo vermelho cria um cenário intenso de paixão que ambienta o relacionamento do casal de tal modo a transmitir ao observador a verdadeira essência do momento. De notar também, o contraste entre esse fundo vívido com a pele do casal e principalmente com a camisa da jovem focam a atenção do espectador a ser concentrada no centro da imagem, região onde a ação ocorre, oferecendo maior destaque, visibilidade e importância àquele momento.
…por Gustav Klimt
O Beijo(1907-1908) foi pintado por Gustav Klimt (1862-1918) , durante seu "período de ouro" (1905-1909), e é provavelmente a sua obra mais famosa. Muito se
especulou sobre a história subjacente a este quadro, no entanto aquilo que vimos é a sua própria história.
Assim, nesta obra as personagens são o pintor Klimt e a sua pupila e amante Emilie. Em Viena, nos finais do século XIX, Emilie é confiada pelo seu pai a Klimt para este orientar a sua filha a nível artístico. Com o passar do tempo, a relação afectiva entre ambos torna-se inevitável. Emilie torna-se sua amante e musa inspiradora da obra-prima "O Beijo", cujo nome Klimt pronunciou na hora da morte.
Embora Klimt seja conhecido pelas suas interpretações do amor erótico e do seu fascínio por mulheres, especialmente as ruivas o que é interessante no Beijo não é a aura de sensualidade. Há uma ternura infinita. É um casamento de almas. A junção dos corpos parece ser a consequência natural do primeiro encontro. É o momento sublime no qual o amor descoberto se completa. E o que antes estava dividido se reunificou. Apesar de o corpo masculino ser formado por retângulos, e do feminino por círculos, eles se fundem harmonicamente. Mal se percebe, mas a mão dela segura a mão dele levemente, como a confirmar essa união. O fato de ela estar de joelhos (e ele, por conseguinte, também) sugere esse casamento. Não um casamento tradicional com a noiva de branco. Um casamento total de corpo e alma. Por isso a cor dourada, isto é, uma proteção por uma aura dourada. Ela está tão entregue que ele precisa segurar-lhe a cabeça para que não penda ainda mais. O quadro é de uma leveza onírica. Só
em sonhos podemos alcançar uma união tão profunda e afim de almas e corpos… ou na arte.
…por Constantin Brancusi
"O Beijo" (1910) é uma escultura realizada por Constantin Brancusi (1876-1957), artista romeno, que abriu novas vias à escultura, no início do século XX, no momento em que a cena artística europeia vivia com frenesim a aventura da investigação de novas linguagens formais e expressivas. Com esta escultura, manifestou a sua convicção segundo a qual a escultura deve ser sobretudo de uma exigência total sobre as formas e sobre o sentido.
Uma linha mediana, interrompida pela cintura infinita dos braços que se entrelaçam, formando um duplo quadro, separa os corpos colados. Das duas figuras vêem-se apenas os olhos, a boca (reduzida a um minúsculo traço de união) e os cabelos, sugeridos em algumas incisões curvadas, enquadrando os rostos amorosos entrelaçados.
Constantin Brancusi realizou uma primeira versão do “Beijo” em 1907, depois simplificou-a e transformou-a em monumento fúnebre no cemitério de Montparnasse, em 1910, dedicando-a a uma amiga que se suicidou por amor.
…por fim.
Muitas são as estórias que ficam por contar sobre os “beijos” da arte, mas principalmente sobre o retrato do amor tirado por vários artistas ao longo do tempo. Mais do que técnicas, tendências e correntes a arte desde sempre nos eleva ao sonho, á vontade de intuir, de sentir.




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